50+1

Jogar

> DEVLOG · JULHO DE 2026 · 5 MIN DE LEITURA

Como nasceu o 50+1

Eu sou designer. Não sou cientista político, não sou jornalista de Brasília, não milito em partido nenhum. Mas, como boa parte dos brasileiros, eu acompanho política do jeito que se acompanha futebol: leio as notícias, tenho opiniões fortes sobre escalações e tenho quase certeza de que, se me deixassem montar o time, eu faria melhor. O 50+1 nasceu exatamente dessa provocação — e se você pudesse mesmo montar o governo?

A primeira versão era pouco mais que uma planilha mental: cinco cargos, alguns nomes conhecidos, uma nota de "quão bem isso terminaria". Quando comecei a transformar isso em jogo de navegador, três decisões definiram tudo o que veio depois.

> 1. O jogo precisava caber numa conversa de WhatsApp

Desde o início eu sabia que o 50+1 não seria um jogo de horas, e sim de minutos — algo que você joga na fila do mercado e manda o resultado no grupo da família. Isso descartou qualquer coisa complexa: nada de mapa do Brasil, nada de dezenas de menus. Ficou o essencial: escolher cinco pessoas, assistir a quatro anos, receber um veredito. Se a partida durasse mais de três minutos, eu cortava alguma coisa.

Essa restrição também definiu o final do jogo: um card de resultado pensado para ser imagem, não tela. O card mostra o veredito, a aprovação e o gabinete escalado — e foi desenhado no formato vertical de story justamente para viver fora do jogo, nas conversas.

> 2. O visual "Data-Punk"

Política no Brasil é tratada com uma estética muito solene — azul sério, brasões, fotos oficiais. Eu queria o oposto: a sensação de estar em um terminal de apuração alternativo, meio retrô, meio hacker. Chamei essa direção de "Data-Punk": fundo escuro, fontes monoespaçadas, ciano e vermelho neon, e uma regra inegociável — nenhum canto arredondado. Tudo no jogo tem borda reta, como interfaces de sistemas antigos.

Como designer, essa foi a parte mais divertida do projeto. A tipografia usa JetBrains Mono para dados (números, seeds, rótulos) e Rajdhani para títulos, criando o contraste entre "máquina" e "manchete". As cores de status seguem semáforo invertido de tensão: verde neon para aprovação alta, amarelo para zona de risco, vermelho para colapso — legível num relance, até no print pequeno do celular.

> 3. Aleatório, mas justo

A terceira decisão foi técnica: o jogo é sorteado, mas cada partida tem um código — a seed — que aparece na URL. A mesma seed sempre gera exatamente o mesmo cenário: as mesmas crises, as mesmas opções de político. Isso transforma reclamação em desafio: se alguém disser que só perdeu por azar, você manda o link da sua partida e responde "então joga essa". Escrevi em detalhes sobre isso no artigo sobre balanceamento e seeds.

> O que o jogo não é

Vale repetir o que está no rodapé de todas as páginas: o 50+1 é sátira. Os atributos dos políticos são caricaturas lúdicas, não avaliações reais — o mesmo espírito dos álbuns de figurinhas de futebol, em que um número de "drible" nunca foi um dado científico. A graça está em discutir a escalação, não em fingir precisão. Se o jogo fizer você procurar o que um ministro da Fazenda realmente faz (temos um artigo sobre isso), missão cumprida.

O 50+1 continua em desenvolvimento — balanceamento, novos cenários e novas mecânicas entram aos poucos. Se você tiver sugestões, o jogo tem um botão de apoio onde também dá para mandar recado. E se ainda não jogou, o convite está de pé: monte seu governo e veja se sobrevive aos quatro anos.